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Venho pensando muito sobre o fazer tradutório na área de tradução de jogos. Como além da prática, estou sempre acompanhando discussões e teorias, resolvi colocar neste artigo alguns pensamentos sobre questões relevantes para jogos e que podem render boas discussões para os profissionais de tradução. Quais são os fatores que tornam a tradução de jogos tão diferente das demais traduções? Por que, acredito eu, que jogos devem ser pensados como um tipo de tradução diferente de traduções literárias e técnicas? Essas perguntas me levaram a pensar no que os jogos, analógicos ou digitais, diferem de outros conteúdos a ser traduzidos. Isso irremediavelmente me levou a alguns traços importantes, e hoje decidi falar um pouco dos meus pensamentos e ideias sobre a questão da interatividade como traço distintivo dos jogos, e porque importa que o tradutor conheça tais características. Diferente de livros, músicas, vídeos, em que há uma passividade de quem consome, nos jogos há a participação ativa daquele que o joga. Seja clicando na tela, no caso de alguns jogos, seja na construção ativa da narrativa em jogos que permitem tal estrutura, como os de RPG, jogadores impactam diretamente na ordem da narrativa, assumindo controle de personagens e guiando-as pela história. Isso gera uma percepção diferente por parte do jogador em relação às personagens do jogo, que se dá de forma diferente de quando, por exemplo, o leitor acompanha uma personagem (ou personagens) ao longo da história de um livro. O jogador acaba por não apenas se identificar, mas assumir o controle e Continuar lendo
No artigo anterior (que você pode ler aqui), escrevi umas dicas básicas para quem está querendo começar a traduzir jogos de RPG. Como já faço isso tem algum tempo (e você pode dar uma conferida no meu portfólio aqui) e estou sempre de olho em tradutores por causa dos projetos da Aster Editora, achei legal escrever umas coisas que funcionam comigo e que talvez ajudem outras pessoas. É o tipo de coisa que eu avalio sempre que chega algum currículo ou portfólio de tradutor que eu não conheço para projetos que eu esteja coordenando, na minha editora ou em outras. Vamos lá? 1 — Mantenha a organização Ok, eu sou a rainha da desorganização. Mas com o meu trabalho, me esforço para superar esse defeito na minha ficha de personagem. Mantenha seu trabalho organizadinho em pastas. Crie uma pasta só para o seu trabalho, e dentro dela, uma pasta para cada cliente. Dentro da pasta do cliente, uma pasta para cada projeto que venha do cliente, o que significa uma pasta para cada linha de jogo OU uma pasta para cada livro. Se você optar por uma pasta para cada linha de jogo, dentro dela organize uma pasta para cada livro ou suplemento/adicional daquela linha. Isso diminui as chances de você se perder no processo. Mantenha seus links do navegador organizados também. Se for preciso, tenha um perfil de navegador só para isso, com uma aba para ferramentas, uma para sites com informações para projetos, uma para dicionários e gramáticas e assim por diante. Organize também o seu tempo. Continuar lendo
O texto a seguir foi originalmente publicado em 2015 na minha página no Medium. Muitas pessoas me contatam todo dia perguntando exatamente o título que dei ao texto — como traduzir RPG? Como começar a trabalhar com isso? Afinal, qual o grande mistério para se tornar tradutor de RPG e outros jogos analógicos? Esta semana, a Graci publicou um texto tocando na necessidade do trabalho profissional de tradução e revisão na área de RPG (com o qual eu concordo, sim), mas o ponto do meu texto não é esse. A pergunta que sempre fazem é sobre o “como chegar lá”. Como conseguir “virar” tradutor? Neste texto, não pretendo tocar na formação — que eu julgo essencial, mas não mandatória (conheço alguns ótimos tradutores de diversas áreas que não têm formação na área e conheço muitos com formação impecável e que são ruins de doer), nem no como conseguir seus primeiros trabalhos, mas no básico do básico… Então vamos a 10 dicas minhas de como começar a traduzir RPG. 1 — Tenha um português impecável Alguém está surpreso? É importante dominar a língua de chegada — e como profissional do texto, bem, é sua obrigação falar sua língua materna com precisão. Você não precisa encarnar o Pasquale, mas deve dominar as ferramentas básicas de análise e ter de cabeça as regras mais elementares de ortografia e gramática, bem como de sintaxe. Não importa se você concorda ou não com qual teoria da linguística, a questão não é essa, ok? Também está tudo ok você, no seu cotidiano, usar um ou outro registro do português, falar uma Continuar lendo
O texto a seguir foi originalmente publicado em 2017 na minha página no Medium. Trouxe para cá porque deu vontade e porque estou avaliando muitos sonhos e expectativas que coloquei nele, então valia a pena trazer para o meu blog, uma vez que escrever é extremamente importante na minha vida. 23 de julho de 2014. Essa foi a data em que decidi chutar tudo pro alto. Desmotivada na agência de tradução em que trabalhava, em que cobravam alta produtividade em troca de baixos salários e condições às vezes humilhantes de trabalho, decidi que já estava mais do que na hora de transformar meu hobby em profissão. Comecei a jogar jogos nos anos 80, quando meu pai conseguiu um Atari de segunda mão. Era um objeto de desejo quase impensável para crianças de classe média baixa da periferia guarulhense, cidade em que nasci e onde resido, ainda mais com tantos cartuchos que vieram junto. Até hoje fico extremamente emocionada quando ouço os sons familiares de Pac-Man, Space Invaders e meu preferido: Bobby is Going Home. Foi pouco depois que eu comecei a ter contato com os livros-jogo, já que eu era (e ainda sou) uma viciada em literatura fantástica, e nos anos 90, os jogos de RPG, com seus livros, fichas de personagens e dados, chegaram na minha vida com força, e se tornaram parte essencial dela. Eu não percebia ainda, mas tudo já dava dicas do que eu queria fazer. Depois de passagens pelo mundo da História, do Design e da Publicidade, tive aquela Continuar lendo