Como Traduzir RPG?

O texto a seguir foi originalmente publicado em 2015 na minha página no Medium.

Muitas pessoas me contatam todo dia perguntando exatamente o título que dei ao texto — como traduzir RPG? Como começar a trabalhar com isso? Afinal, qual o grande mistério para se tornar tradutor de RPG e outros jogos analógicos? Esta semana, a Graci publicou um texto tocando na necessidade do trabalho profissional de tradução e revisão na área de RPG (com o qual eu concordo, sim), mas o ponto do meu texto não é esse.

A pergunta que sempre fazem é sobre o “como chegar lá”. Como conseguir “virar” tradutor?

Neste texto, não pretendo tocar na formação — que eu julgo essencial, mas não mandatória (conheço alguns ótimos tradutores de diversas áreas que não têm formação na área e conheço muitos com formação impecável e que são ruins de doer), nem no como conseguir seus primeiros trabalhos, mas no básico do básico…

Então vamos a 10 dicas minhas de como começar a traduzir RPG.

1 — Tenha um português impecável

Alguém está surpreso? É importante dominar a língua de chegada — e como profissional do texto, bem, é sua obrigação falar sua língua materna com precisão. Você não precisa encarnar o Pasquale, mas deve dominar as ferramentas básicas de análise e ter de cabeça as regras mais elementares de ortografia e gramática, bem como de sintaxe. Não importa se você concorda ou não com qual teoria da linguística, a questão não é essa, ok?

Também está tudo ok você, no seu cotidiano, usar um ou outro registro do português, falar uma ou outra variante da língua. Se você souber empregar, quando necessário e apropriado, diferentes registros da língua, você está no caminho certo.

Se você não sabe o que é registro, realmente recomendo que estude teorias da língua. Saber que não existe o “certo” e o “errado”, mas também dominar ao menos a norma urbana culta é mandatório para quem quer trabalhar com texto sem fazer caca. Circule com propriedade e confiança nos e entre os mais variados registros. E sem zoar quem usa um ou outro registro, que preconceito linguístico é algo vergonhoso.

2 — Fale inglês, mas tenha também conhecimento de outras línguas

Vale para o inglês, que é a língua em que encontramos a maior parte da produção de RPG, mas também vale para outras línguas se for o seu caso (ou bem, o meu caso, que trabalho também com espanhol): tenha conhecimentos, mesmo que básico, de outras línguas. Isso aumenta seu repertório, abre sua cabeça para probabilidades, possibilidades, culturas, formas de organizar pensamento, mas também fornece ferramentas novas para aprimorar seu próprio trabalho. Às vezes saber como diferentes línguas funcionam realmente ajuda a encontrar o melhor termo ou adaptação para aquela palavra enroscada.

3 — Jogue RPG. Mas não só RPG: leia livros, ouça músicas, veja séries, converse com a cobradora do ônibus…

É um ponto importante: conheço inúmeros jogadores que dizem que querem trabalhar com RPG e que, se tanto, SÓ leem RPG e textos nerds de áreas “próximas”. Que vivência isso dá para que alguém seja capaz de buscar recursos de registros, culturas, personagens, falares diferentes? Como você quer retratar personagens de diferentes grupos, segmentos e espaços culturais, geográficos, sociais, se você é incapaz sequer de reconhecer termos, expressões ou de fazer pesquisas sobre o falar daquele grupo?

Saia da sua caixinha um pouco. Se RPG é sobre ou contar histórias, ou imersão em um mundo (que é outra polêmica do RPG de que não tratarei aqui), como você quer contar histórias de, ou imergir em, mundos e realidades diferentes, se você é incapaz de conversar com pessoas de outros grupos que são diferentes do seu? Não se esqueça de que, se RPG é produto e você está (ou quer estar) na cadeia produtiva, no mercado, precisa “vender seu peixe”, e vender seu peixe passa por conhecer seu público-alvo. E bem, todo mercado precisa de expansão. E para expandir, é essencial a representatividade sem estereótipos burros, sem preconceitos e discriminações. E isso passa por conhecer outras pessoas, de outros grupos e meios, de forma sincera, sem ofender essas pessoas ou se sentir superior a elas.

4 — Saiba usar dicionários

Seja os de papel, seja os online, saiba usá-los. Mas não falo só dos bilíngues, trilíngues — falo dos monolíngues, e também dos de sinônimos, antônimos, históricos, de todos eles sim. Saiba pesquisar etimologia, e saiba usar os contextuais. Dicionário é ferramenta de trabalho, você deve dominar.

5 — Google Translate não vai trabalhar para você

Não use o Google Translate e ache que ninguém vai perceber, porque vai sim. Não use o Google Translate e dê um “tapinha” no texto achando que ninguém vai perceber, porque vai sim. O Google Translate é um bom dicionário, traz algumas boas sugestões, principalmente contextuais, mas é só uma ferramenta. O trabalho ainda é todo seu. Use a ferramenta com sabedoria.

6 — Aprenda a usar decentemente a pesquisa do Google

É incrível a facilidade que se tem quando podemos pesquisar a ocorrência de termos diferentes, em diferentes línguas e até mesmo em diferentes países! Use o Google como um aliado poderoso. Aprenda a usar a busca, o Google Imagens, as buscas do Youtube e até mesmo a analisar a ocorrência de termos, em quantidade, que o próprio Google exibe. Pesquise sobre os “códigos” e “atalhos” do Google para fazer pesquisa de termos em uma dada língua, mas em diferentes países. O Google é seu amigo.

7 — Aprenda a usar CAT Tools

Cada vez mais, as CAT Tools estão dominando o mercado de tradução inclusive de RPG — ainda bem! Elas ajudam a manter a coerência de termos, a manter glossários organizados e até mesmo a gerenciar diferentes materiais de cenários.

8 — Pratique muito, sempre

Você está chegando agora? Então pegue material gratuito e livre e comece a praticar! Isso certamente dá uma segurança maior para quem realmente é cru na tradução de RPG. Não adianta nunca ter produzido conteúdo, nem traduzido, nem revisado, nem nada, e achar que vai dar conta de um livrão imenso de 400 páginas, porque não, não vai. E eu não estou dizendo que você não é bom, apenas que você precisa ganhar XP. Ganhe experiência primeiro, procure editoras depois — ou você vai acabar só se queimando.

9 — Não deixe que abusem da sua falta de experiência

Falta de experiência não significa que você precisa trabalhar de graça (ou quase de graça). Sim, você pode trabalhar quase de graça se você quiser, mas saiba que isso deixa o mercado ruim para todo mundo, mas especialmente para você. Se é para trabalhar de graça, por que não tradução de fã, de material gratuito?

Se você precisa de portfólio e realmente quer pegar mais trabalhos, existem outros meios de entrar no mercado, de persistir. Existe aquele projeto legal que você pode fazer com seus amigos. Cobrar valores irrisórios só vai fazer com que seu trabalho seja sempre visto como inferior e você tenha grandes dificuldades para subir seus valores depois — porque os clientes vão acostumar a ver você como a pessoa que cobra pouco. Se você quer realmente trabalhar com texto, precisa lembrar que, no supermercado, não trocam tapinhas nas costas por comida. Isso vale para qualquer mercado, não só para o RPG, mas no RPG não é diferente. E ser estudante não é desculpa, ok?

10 — Tenha paixão e humildade

Tenha paixão pelo RPG: é um mercado “para os fortes”. Precisa de insistência, de persistência, navegar em águas turbulentas, lidar com as pedradas (muitas vezes injustas). Mas tenha também humildade para reconhecer um erro, pedir desculpas e melhorar. Tenha humildade em reconhecer o trabalho daqueles que vieram antes de você, analise suas traduções, sem preconceitos e discriminações, e use e abuse do glossário que já existe na mente do nosso público sempre que cabível. Deixar que seu ego vá nas alturas só vai prejudicar não só o seu trabalho, como o mercado como um todo. Lembre-se que mais que mercado, RPG é também “comunidade”. Jogue em grupo sempre que puder.

São dicas básicas, muito básicas, mas que dão conta daquilo que vem antes do trabalho de tradução em si. É claro que tem gente que vai discordar, tem gente que vai concordar, tem quem vá me achar maluca e tem quem vá me achar um gênio (olha o ego xD). É na discordância e nos debates de ideia que descobrimos como gastar sabiamente a XP adquirida, certo?

E você, tem alguma dica? Alguma dúvida em relação ao trabalho com tradução e revisão de RPG?

4 comentários em “Como Traduzir RPG?”

  1. Pingback: Mais Dicas para Tradutores de RPG – Eva Andrade

  2. Bom dia!

    Olha, sei que esse texto é a reprodução de outro seu, lá de 2015, mas vou ter que dizer: MUITO OBRIGADO por compartilhar seu conhecimento e experiência conosco! Admiro seu trabalho e sua luta!

  3. Muito bom o texto!
    Curti particularmente você destacar CAT tools no item 7, porque eu me lembro de falar sobre isso com gente de várias editoras e sempre fazerem cara de paisagem ou “do que esse mané tá falando”.

    1. Felizmente muitas editoras já estão mais ligadas no que é. Inclusive já estão aprendendo que mandar pra gente os originais em PDF é horrível, é melhor pra gente e pra editora mandar em formato do inDesign porque dá um baita adianto pra todo mundo, além de todas as outras vantagens de CAT Tools.

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