Dungeon Master da própria carreira

O texto a seguir foi originalmente publicado em 2017 na minha página no Medium. Trouxe para cá porque deu vontade e porque estou avaliando muitos sonhos e expectativas que coloquei nele, então valia a pena trazer para o meu blog, uma vez que escrever é extremamente importante na minha vida.

23 de julho de 2014. Essa foi a data em que decidi chutar tudo pro alto. Desmotivada na agência de tradução em que trabalhava, em que cobravam alta produtividade em troca de baixos salários e condições às vezes humilhantes de trabalho, decidi que já estava mais do que na hora de transformar meu hobby em profissão.

Alegria da minha infância e meu jogo preferido: Bobby is Going Home, do Atari ❤

Comecei a jogar jogos nos anos 80, quando meu pai conseguiu um Atari de segunda mão. Era um objeto de desejo quase impensável para crianças de classe média baixa da periferia guarulhense, cidade em que nasci e onde resido, ainda mais com tantos cartuchos que vieram junto. Até hoje fico extremamente emocionada quando ouço os sons familiares de Pac-Man, Space Invaders e meu preferido: Bobby is Going Home.

Foi pouco depois que eu comecei a ter contato com os livros-jogo, já que eu era (e ainda sou) uma viciada em literatura fantástica, e nos anos 90, os jogos de RPG, com seus livros, fichas de personagens e dados, chegaram na minha vida com força, e se tornaram parte essencial dela.

GURPS foi meu primeiro RPG

Eu não percebia ainda, mas tudo já dava dicas do que eu queria fazer. Depois de passagens pelo mundo da História, do Design e da Publicidade, tive aquela crise dos 20 anos que muita gente tem. Decidi que queria estudar literatura, então fui fazer Letras, curso com que tenho uma intensa relação de amor e ódio, geralmente mais amor do que ódio, mas que é vital no meu ofício, ainda que seja uma batalha diária conciliar as obrigações acadêmicas severas, a alta carga de leitura e o meu trabalho atual.

Foi no segundo anos do curso de Letras, com um inglês mais ou menos, que apareceram as primeiras oportunidades de tradução. Uma pessoa que trabalhava com comunicação precisava de ajuda para traduzir as legendas de um importante produto da emissora, e ao mesmo tempo queria me ajudar a tomar um rumo profissional. Sob acordo de confidencialidade e promessas de que meu trabalho seria revisado com rigidez, topei esse primeiro desafio. Mas até então, sonhava com a carreira acadêmica na área de Literatura Comparada, fazia Iniciação Científica e continuava na luta diária, enquanto pessoa oriunda da periferia, para permanecer ocupando os bancos da graduação.

Um tempo depois tive uma nova crise pessoal. Depois de algumas experiências na tradução e na revisão, desiludida com projetos do tipo barco furado (mas que me renderam amigos maravilhosos), passei a trabalhar na área de Comunicação Social, uma vez que eu tinha alguma formação na área e eu não sabia mais o que queria com a minha pesquisa, se era aquela vida acadêmica que eu queria. Acabei trancando o curso e voltando diversas vezes, e em uma dessas voltas, voltei também para a tradução, ora estagiando, ora contratada para a área de Controle de Qualidade. Porém, a realidade que encontrei nas agências era chocante. Prazos surreais, supervisores sem experiência nem formação na área cobrando coisas bizarras, muitas vezes deixando claro que não queriam trabalhar com profissionais que questionassem o trabalho e as condições de trabalho. Um supervisor chegou a deixar claro que preferia trabalhar com tradutores que ele considerava burros, mesmo que o trabalho deixasse a desejar, mas ao menos não questionavam ordens. Acabei adoecendo com um ambiente hostil, em que a competitividade era estimulada ao ponto da insanidade. Aproveitei o período de doença para não mais voltar — só voltei para buscar um livro de RPG que eu havia deixado na mesa de trabalho.

Ainda existe agência que trata como se fosse assim, mesmo sabendo bem que não é.

Bem, durante a volta, fiquei pensando… eu tinha a experiência, a formação. Era gamer. Por que não? Então comecei a mandar currículo para editoras, desenvolvedoras, produtoras e agências da área de games, tanto analógicos quanto digitais. Por essa época, eu já mantinha havia anos um blog um tanto underground sobre jogos de RPG, e decidi que ele iria para o meu currículo também. Afinal o não eu já tinha, certo? E eu havia recentemente sido contatada por um autor de RPG e literatura de quem sou muito fã e hoje, amiga, para colaborar nos testes de seus jogos. E então, eu já tinha uma longa bagagem de 7 anos como tradutora técnica.

Uma empresa de tradução e localização respondeu positivamente ao meu currículo engraçadinho. Entrei em um projeto daqueles que não deixa dormir. Ainda que eu tenha quebrado fortemente a cara, não recebendo o combinado e ainda dando conta de trabalho de outros tradutores que, mais espertos que eu, abandonaram o trabalho, aprendi muito sobre o que não fazer, sobre ética de trabalho e compromisso. Aprendi também, na prática e do jeito difícil, como lidar com glossários, memórias de tradução e CAT Tool, principalmente o MemoQ. Enquanto isso, continuava fazendo contatos. Chegava a dormir no máximo 3 horas por manhã, quando meu corpo já não aguentava mais as longas horas sentada, com todo o resto do tempo dedicado a dar conta do projeto insano que, apesar de ainda estar sob contrato de confidencialidade, não chegou a ser publicado. E tudo isso ainda apanhando com a faculdade, decidindo o que faria com o meu curso de graduação em Letras Português/Alemão na USP. Mas conheci algumas pessoas que passaram a ser não só colegas de trabalho, que me ajudam e a quem eu ajudo, e que se tornaram companheiros para toda a vida.

Um amigo que fiz inicialmente por conta do blog e que já trabalhava com jogos de RPG me indicou para uma editora nova que precisava de alguém realmente com alguma formação na área de língua e literatura, experiência em tradução e conhecimentos profundos de jogos. Eu não sabia, mas se tratava do Numenera, grande título da Monte Cook Games inspirado na obra de Arthur C. Clarke e que saiu no Brasil pela New Order Editora, editora pela qual terei carinho eterno.

E de lá para cá, o resto é realmente história. História para contar com um bom livro, usando dados ou com um controle na mão. Entre tradução, supervisão de tradução e mesmo escrita própria, já são mais de dez obras na área de games, localização de games e literatura fantástica publicadas com a minha participação em algum grau. No momento, além de ter acabado de voltar para o curso de Letras na mesma universidade, mas agora cursando Português/Espanhol, acabo de entregar uma prazerosa tradução de Hora de Aventura: Roleplaying Game, enquanto trabalho nas traduções internas da Aster Editora, editora que fundei no fim do ano passado em sociedade com o meu noivo, que é desenhista. Também trabalho em uma Iniciação Científica na área de Tradução, e que espero que siga adiante para um futuro mestrado.

Pareço calma, mas sempre dá frio na barriga quando falo do meu trabalho, ainda mais ao lado da Zanini, fera na tradução e localização de jogos! Diversão Offline, 2016.

Eventualmente me arrisco dando palestras e oficinas sobre jogos, localização de jogos e oficinas de escrita, além de ser ativa nas discussões sobre representatividade na cultura pop, nos jogos e na sociedade, com destaque para a representação de mulheres, pessoas negras e periféricas.

Meu trabalho deixou de ser só lágrimas, e embora ainda tenha dias muito amargos (todo tradutor sente isso quando aquele termo que está na ponta dos dedos enrosca e demora a sair), tenho trabalhado em projetos extremamente doces. Não há nada como ser a dungeon master da própria vida, pessoal e profissional.

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