Mais Dicas para Tradutores de RPG

No artigo anterior (que você pode ler aqui), escrevi umas dicas básicas para quem está querendo começar a traduzir jogos de RPG. Como já faço isso tem algum tempo (e você pode dar uma conferida no meu portfólio aqui) e estou sempre de olho em tradutores por causa dos projetos da Aster Editora, achei legal escrever umas coisas que funcionam comigo e que talvez ajudem outras pessoas.

É o tipo de coisa que eu avalio sempre que chega algum currículo ou portfólio de tradutor que eu não conheço para projetos que eu esteja coordenando, na minha editora ou em outras.

Vamos lá?

1 — Mantenha a organização

Ok, eu sou a rainha da desorganização. Mas com o meu trabalho, me esforço para superar esse defeito na minha ficha de personagem.

Mantenha seu trabalho organizadinho em pastas. Crie uma pasta só para o seu trabalho, e dentro dela, uma pasta para cada cliente. Dentro da pasta do cliente, uma pasta para cada projeto que venha do cliente, o que significa uma pasta para cada linha de jogo OU uma pasta para cada livro. Se você optar por uma pasta para cada linha de jogo, dentro dela organize uma pasta para cada livro ou suplemento/adicional daquela linha. Isso diminui as chances de você se perder no processo.

Mantenha seus links do navegador organizados também. Se for preciso, tenha um perfil de navegador só para isso, com uma aba para ferramentas, uma para sites com informações para projetos, uma para dicionários e gramáticas e assim por diante.

Organize também o seu tempo. Embora pequenos atrasos sejam compreensíveis, e ficar doente acontece, atrasar tudo porque você se distraiu vendo série ou jogando algo não é bacana não. Isso vai ajudar você a criar uma rotina mínima de trabalho. Se precisar, use técnicas como a Pomodoro para dividir seus ciclos de atenção durante o trabalho. Afinal, é humanamente impossível ficar 100% concentrado em 100% do tempo.

2 — Não desapareça…

A menos que alguém morra ou você fique terrivelmente doente, não desapareça. Algumas editoras estabelecem rotinas mínimas de contato, seja por inbox do Facebook, seja por e-mail ou por outra ferramenta de comunicação. Se algo fora do previsto acontecer, avise. Ninguém é sem coração de não entender um problema de saúde, ou problemas com a internet, mas desaparecer totalmente atrapalha todo mundo.

3 — … mas não permita que o trabalho controle a sua vida

Essa eu aprendi a duras penas, depois de me sobrecarregar e adoecer gravemente por uma soma de coisas. Separe ao menos um (o ideal são dois) dia da semana para relaxar. Tenha seu final de semana, seu momento para jogar, e não se esqueça de dormir bem. Sei que existem fases do projeto que exigem horas a fio traduzindo, mas se essa é uma constante na sua vida, não só episódios, então você está com um problema de gerenciamento de tempo ou de prioridades.

4– Tenha consigo um compilado de ferramentas

Conheça ferramentas que convertem pdf em .doc online, com poucos cliques, uma ferramenta online que use a Técnica Pomodoro para os dias mais difíceis, dicionários de sinônimos e antônimos, o acordo ortográfico brasileiro para consultas, o corpus do VOLP, uma ferramenta de transferência de arquivos grandes e assim por diante — tudo nas abas do seu computador. Deixo para vocês um compilado de algumas das ferramentas que eu uso e que podem salvar vidas no fim do artigo.

5 – Não deixe o trabalho inacabado

A menos que, por algum motivo, você tenha que abandonar o projeto, ou algo realmente catastrófico aconteça, não deixe o trabalho inacabado. Não deixe dúvidas, palavras com alguma marcação (interrogação, negrito ou o que for) de dúvida no meio do texto quando fizer a entrega para o contratante. Pode parecer básico, mas a verdade é que, quando encomendamos uma tradução, a encomendamos completa e terminada. É trabalho do tradutor traduzir tudo e tirar todas as dúvidas. Como? Bem, a gente se vira nos trinta. Por mais que vá passar por uma revisão, uma tradução deve SEMPRE ser feita como se você estivesse escrevendo uma carta para a rainha da Inglaterra, caso ela falasse português. Dê o seu melhor.

Antes de entregar, converta o arquivo em formato .doc ou afins e passe pelo corretor do Word. Faça as alterações necessárias no arquivo que será entregue ao cliente. Mas não se esqueça que é você quem tem que confirmar se está escrito certo ou não. O Word é só uma ferramenta, o trabalho ainda é seu.

Caso você invente de arriscar e deixe o trabalho inacabado e enviar assim mesmo, não reclame se você receber algum tipo de desconto no pagamento. Alguém vai ter de fazer o trabalho que você não fez.

6 — Construa um portfólio começando pequeno

É muito comum editoras de jogos terem pequenos trabalhos. Às vezes isso é feito na própria casa, mas às vezes não. Se você está chegando nesse mercado agora, peça testes, e deixe claro que está aberto para pequenos trabalhos, como aventuras curtas que só serão distribuídas em pdf, mini-jogos, pequenos manuais. Comece de baixo e tenha muito orgulho da sua trajetória. Se possível, se arrisque também na revisão e/ou no copidesque.

Cuidado para não morder mais do que pode mastigar. Mesmo que você tenha muitos e muitos anos de experiência com tradução de outras áreas, traduzir e localizar jogos é algo totalmente diferente, e você vai precisar de um tempo para se adaptar.

Só não caia na bobeira de trabalhar de graça ou a troco de centavos por página. Isso não existe em mercado nenhum e deixa o mercado horroroso para todo mundo. Se você estiver em dúvida se o pagamento que ofereceram é justo ou não, contate outros tradutores da área com as suas dúvidas. A gente costuma se ajudar.

7 — Não divida o trabalho com outro tradutor sem a concordância da editora

Eu sei que, às vezes, o trabalho é grande demais. Às vezes é apenas muita coisa, e a gente não quer perder aquela oportunidade maravilhosa, então nada mais justo do que dividir o trabalho com os amigos, certo? Bem, sem a concordância prévia da editora, tá errado.

Qualquer tradução ocorre sob um preceito ético mínimo de confidencialidade. Isso significa que você não tem o direito de dividir os arquivos originais da editora com ninguém a menos que a editora concorde antes. Pode ser que o editor responsável pela obra queira, ele mesmo, coordenar todos os tradutores envolvidos. Pode ser que ele autorize que você divida. Mas lembre-se de que a editora confia no seu trabalho, não no de um desconhecido. Perguntar antes não dói.

8 — Aprenda a usar CAT Tool para ontem

Algumas editoras exigem que seja usada uma ferramenta de tradução, outras não ligam. As mais comuns que vejo sendo usadas no mercado nacional de RPG são MemoQ (obrigatório em algumas editoras) e o Omega T (que é gratuito). Também tem gente que usa o Wordfast (ferramenta de que eu desgosto um pouco). Ajuda a manter memória de tradução e glossários organizados.

Eu particularmente trabalho com o MemoQ, faço de tudo pra converter para o MemoQ. Existe uma versão gratuita que você pode usar enquanto não adquire a sua licença.

9 — Sua Memória de Tradução e Glossários são SEUS (a menos que exista acordo prévio)

Eu escrevi um textão sobre isso no Facebook:

A memória de tradução é sua para usar, dar, vender, como achar melhor (só não esquece que os direitos sobre obra alheia ainda são protegidos, então cada caso é um caso). A menos que o seu trabalho linguístico para organizar memória de tradução tenha sido contratado, você não é obrigado a fornecer para ninguém.

E também não peça a de outros tradutores. É feio, é deselegante, afinal você está pedindo que outra pessoa forneça o trabalho dela, protegido por direitos no mínimo morais, para que você trabalhe e ganhe dinheiro com ele e ainda coloque seu nome no trabalho de outra pessoa. Coisa feia. No máximo tire dúvidas com amigos. Isso é joia, é lindo, é bacana. Mas não peça para que outros façam seu trabalho.

10 — Estude sempre

Isso significa um monte de coisas. Significa que você precisa manter um estudo constante da língua portuguesa, da língua estrangeira com que você trabalha, mas que você se mantenha atualizado com a área, com a cultura pop, com as variações linguísticas, sem preconceitos. Ninguém fala como escreve, então é importante ter ótimas noções de oralidade.

Estude técnicas de tradução. Existem ótimos livros, muito material online em diversas línguas, e mesmo estudos mais formais, no nível da graduação, da pós e mesmo cursos livres. Não ignore o saber produzido na área de teoria da tradução. Não ignore também estudos linguísticos, nem a necessidade de estudar constantemente uma boa gramática (eu uso a do Celso Cunha geralmente, mas também curto o Bechara).

Também não ignore os estudos da oralidade, nem as variações históricas das línguas.

Conheça a Reforma Ortográfica do Português Brasileiro. Tire suas dúvidas, não suponha que você é fera no português só porque você costuma escrever textão de Facebook. Todos nós erramos em algum momento, a normativa pode ser bastante complicada.

Admita que você não sabe quando você não sabe e procure ajuda. Pergunte em grupos, listas de discussão, para amigos.

Eu sei que, muitas vezes, as pessoas jogam pedras na gente de modo injusto. Faz parte do ofício, e dada a história dos tradutores no mundo, tenho a impressão de que sempre fez. Nós somos a ponte do público que fala português com o que é produzido em outras línguas, mas se não formos claros, podemos no lugar de ponte, ser barreira.

Por enquanto é isso. Escrevo mais para compilar as dicas que, vira e mexe, solto por aí, e na esperança de que ajude alguém.

Abraços!

Links para salvar vidas

Wetransfer

Para transferir arquivos enormes com facilidade. Tem versão paga e versão gratuita. Uso a versão gratuita e acho bem bom. — https://wetransfer.com/

Tomato Timer

Ferramenta online que eu uso pra gerenciar meu tempo usando a Técnica Pomodoro. Gratuito. — https://tomato-timer.com/

PDFtoDoc

Ferramenta para conversão de arquivos .pdf em .doc. Pode ajudar demais em alguns projetos específicos. Gratuita. — http://pdf2doc.com/

Aulete

Bom dicionário online do português brasileiro. — http://www.aulete.com.br/

Acordo Ortográfico

Texto oficial do Acordo Ortográfico do Português vigente no Brasil — http://portal.mec.gov.br/arquivos/pdf/acordoortografico.pdf

Vocabulário do Português

Vocabulário do Português Brasileiro da Academia de Letras — http://www.academia.org.br/nossa-lingua/busca-no-vocabulario

Conjugação de Verbos

Conjugação de verbos do português brasileiro — https://www.conjugacao.com.br/

Dicionário de divisão silábica

Muito útil para revisores, preparadores e editores que colocam a mão no livro já diagramado — http://www.portaldalinguaportuguesa.org/index.php?action=syllables&act=list

Corpus do Português Brasileiro

Um corpus muito bom do português falado no Brasil — http://www.corpusdoportugues.org/

Sinônimos

Dicionário bem bom de sinônimos do português — https://www.sinonimos.com.br/

Antônimos

Dicionário bem bom de antônimos — https://www.antonimos.com.br/

Oxford Dictionaries

Dicionário monolíngue do inglês. — https://en.oxforddictionaries.com/

Thesaurus

Dicionário de sinônimos, antônimos e significados em inglês — http://www.thesaurus.com/

Glossários ProZ

Glossários e dicionários do ProZ em diversas línguas — http://www.proz.com/search/

RAE

Dicionário da Real Academia Española — http://www.rae.es/

Dicionário Criativo

Bom dicionário para dar novas ideias com base em palavras — http://dicionariocriativo.com.br/

LangWiki

Um trabalho de formiguinha em que, aos poucos, tenho compilado alguns dos meus glossários e outras informações que costumam levantar dúvidas durante a realização do meu trabalho – https://evelini.com.br/langwiki/

O texto foi originalmente publicado em 2017 na minha página no Medium. Contém atualizações importantes para 2019.

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