Tradução de Jogos: Imersão

Venho pensando muito sobre o fazer tradutório na área de tradução de jogos. Como além da prática, estou sempre acompanhando discussões e teorias, resolvi colocar neste artigo alguns pensamentos sobre questões relevantes para jogos e que podem render boas discussões para os profissionais de tradução.

Quais são os fatores que tornam a tradução de jogos tão diferente das demais traduções? Por que, acredito eu, que jogos devem ser pensados como um tipo de tradução diferente de traduções literárias e técnicas?

Essas perguntas me levaram a pensar no que os jogos, analógicos ou digitais, diferem de outros conteúdos a ser traduzidos. Isso irremediavelmente me levou a alguns traços importantes, e hoje decidi falar um pouco dos meus pensamentos e ideias sobre a questão da interatividade como traço distintivo dos jogos, e porque importa que o tradutor conheça tais características.

Diferente de livros, músicas, vídeos, em que há uma passividade de quem consome, nos jogos há a participação ativa daquele que o joga. Seja clicando na tela, no caso de alguns jogos, seja na construção ativa da narrativa em jogos que permitem tal estrutura, como os de RPG, jogadores impactam diretamente na ordem da narrativa, assumindo controle de personagens e guiando-as pela história. Isso gera uma percepção diferente por parte do jogador em relação às personagens do jogo, que se dá de forma diferente de quando, por exemplo, o leitor acompanha uma personagem (ou personagens) ao longo da história de um livro. O jogador acaba por não apenas se identificar, mas assumir o controle e tomar para si a lógica da personagem durante a progressão da história.

Essa interação, por fim, acaba criando um novo nível de imersão, mais profundo, do que aquele que é possível quando falamos de outras mídias.

Imersão e Tradução

A experiência da imersão nos jogos é uma questão delicada. Dada a forma como jogos são desenvolvidos, tudo nele importa para que ocorra a suspensão da descrença do jogador. Assim, no caso de jogos analógicos especificamente (embora seja verdade também para os digitais, mas esses possuem também outros pontos a se considerar), o jogo é pensado para causar a suspensão da descrença através do sistema e do cenário, da descrição das regras, da escolha das ilustrações, enfim, de todo o conteúdo produzido para o jogo.

Levar a imersão em consideração é essencial para o fazer tradutório em jogos. Traduções ruins ou imprecisas, mal fraseadas, com instruções confusas, podem levar o jogador a rejeitar o jogo, porque a experiência de imersão será prejudicada. Inconsistências também podem ter o mesmo efeito na escolha das palavras, que mesmo talvez não estando erradas, podem não permitir que o jogador tenha a experiência completa de imersão desejada pelo game designer quando do desenvolvimento do jogo.

Na tradução, principalmente na literária, existem duas perspectivas de trabalho: pode-se manter a terminologia e referências da língua-fonte do trabalho, internacionalizando a tradução, ou pode-se domesticá-la, trocando tais referências e terminologias para outras mais familiares à cultura da língua-destino. Os jogos, com seus próprios mundos, adicionam uma nova camada a esse problema. A partir do momento em que uma nova cultura é criada, ou adaptada e interpretada para um cenário de jogo, é necessário pensar em todos os aspectos que fazem parte de tal cultura. Assim, toda a questão de balancear a carga comunicativa da tradução, que geralmente ocorre entre duas camadas, ao se tratar da tradução de jogos, ganha esse terceiro elemento, que também necessita estar em equilíbrio com os outros dois.

É importante se ater a esse equilíbrio para não estragar a imersão no jogo, o que acabaria por arruinar o propósito do jogo em si. Elementos considerados estrangeiros na cultura da língua-destino da tradução devem ser tratados com cuidado, uma vez que se supõe que jogadores precisam se identificar com as personagens que controlam e empatizar com as situações e problemas que são apresentados, mas também não adianta querer interferir tão profundamente no jogo que, por conta da tradução, acaba por resultar em algo tão diferente do original que já não possui laços profundos com os objetivos do desenvolvedor. Uma vez que não existe cultura sem língua, e que a língua molda a própria forma de uma dada sociedade pensar, é extremamente necessário atentar para isso. Sim, isso torna o trabalho do tradutor de jogos muito difícil, porque a aproximação cultural é sempre algo delicado, já que o tradutor precisa ter a certeza de que todos os jogadores (principalmente em jogos coletivos) precisam ter a mesma compreensão e aproximação daquele mundo que o desenvolvedor do jogo buscou criar como experiência.

Mantenha sempre em mente a necessidade de imersão profunda quando trabalhar em uma tradução de jogo. Jogadores procuram uma dada experiência quando optam por um jogo, e se não encontram o que é necessário, poderão concluir que o jogo não é bom quando, na verdade, pode se tratar apenas de problemas na tradução do mesmo.
Esses primeiros pensamentos sobre a tradução de jogos acabaram me levando para a questão da jogabilidade, que eu deixarei para um próximo artigo.

Mas e como você, tradutor, lida com a questão da necessidade de imersão nos jogos que você traduz? E você, jogador, já teve a imersão em um jogo prejudicada por problemas que, mesmo sem ler o material original, você acabou sacando que estava na tradução do jogo? Deixe sua experiência aí embaixo pra gente conversar sobre isso ^-^

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